sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Moonlight: sob a luz do luar - 2016




Por Jason


Chiron (Alex Hibbert) mora numa comunidade pobre de Miami e é perseguido por outros garotos da escola. O menino é introspectivo, tímido, tem dificuldade de se relacionar com outras crianças de sua idade e com os adultos em sua volta. Em sua fuga depois de sofrer bullying na escola, ele é encontrado por Juan (Mahershala Ali) um traficante que, com sua mulher Teresa (Janelle Monae), o leva para sua casa e lhe oferece abrigo e comida por uma noite antes de procurar pela mãe do menino (Naomie Harris). 

A partir daí, Chiron passa sempre a voltar a ter contato com Juan, que começa a servir de figura paterna para ele. Uma figura, aliás, que todos sabemos, não poderá resultar em bons frutos. Os problemas, no entanto, são muitos na vida do garoto: sem pai, sua mãe é viciada em crack (Juan é o homem que vende drogas para ela) e Chiron está em período ainda de confusão sobre sua sexualidade. Na adolescência, a situação do menino piora, que passa a sofrer cada vez mais humilhações na escola e de sua mãe cada vez mais viciada, louca por dinheiro para comprar crack. O colega Kevin agora divide o baseado com ele e está numa fase em que precisa de auto afirmação para mostrar que é heterossexual - na mesma medida que Chiron está se descobrindo apaixonado por ele, com quem terá seu primeiro e inesquecível contato sexual.

Moonlight vai fazendo, dessa forma, um estudo da infância e da adolescência de um negro, homossexual, pobre e de boa índole,  mas que é tragado inevitavelmente para a marginalidade por conta do meio em que está crescendo. Não por acaso, uma vez adulto (na pele musculosa de Trevante Rhodes), Chiron já se transformou em traficante e, como se vingasse de todo o seu passado, é uma pessoa um tanto intimidadora, mas ainda assustado pela figura decrépita da mãe e com algum resquício, mesmo que pequeno, lá no fundo, do adulto que ele poderia ser se sua vida tivesse um caminho diferente. Logo, é impossível não conectar esta figura solitária, rígida e trágica ao que o colega Kevin lhe diz quando ambos são apenas garotos, tentando ensiná-lo a se defender - "eles (os outros) não precisam saber (da sua sexualidade)". Chiron faz pose de macho hétero (fala sobre pegar uma menina que, todos sabemos, é mentira) com seus dentes de ouro, sua arma e seus músculos, quando seu coração ainda está conectado à figura desengonçada do jovem Kevin que tanto o seduziu e o feriu na mesma proporção. 

Nesse sentido, todo o elenco brilha aqui e ali com bastante regularidade: Trevante é um achado e consegue passar uma imagem intimidadora e ao mesmo tempo frágil na pele do Chiron adulto. O momento em que revela a Kevin que nenhum outro homem o tocou é tocante e desesperador no mesmo tom. Ali tem pelo menos dois grandes momentos, um em que ensina o menino a nadar e outro em que precisa responder aos questionamentos da criança sobre a própria sexualidade. Naomie Harris se sobressai nos poucos momentos, primeiro como a mãe irresponsável e relapsa, depois como uma mulher deteriorada pelas drogas e arrependida por ter contribuído com o destino ruim que o filho tomou. 

Indicado a oito Oscars, vencedor de diversos prêmios aos quais concorreu, “Moonlight” é dirigido e roteirizado por Barry Jenkins, baseado no projeto “In Moonlight Black Boys Look Blue” do premiado dramaturgo Tarell Alvin McCraney e traz uma grande pitada de biografia. O filme escorrega na montagem travada e o final, para quem acompanhou a saga do pobre menino até a sua vida adulta, deixa um sabor agridoce. Porém, Berry tem aqui uma chance única de um material que exala delicadeza e opta certeiramente por trabalhar no diálogo e no nuance. A sequência de encontro em Chiron e Kevin adultos coloca o espectador no meio dos dois personagens que exalam uma tensão sexual com os olhos e com gestuais - e o trabalho dos atores é essencial nesse sentido. Prova de que não se trata de um filme apelativo, e não é por consequência também um filme que agradará a todos. Moonlight fala de aceitação de sexualidade, de masculinidade, de identidade, de homofobia, de problemas sociais - um filme triste e simples na sua concepção, mas com temas universais, atuais, necessários e urgentes.  

Cotação: 4/5

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