segunda-feira, 24 de abril de 2017

Artigo - Alien: é tudo sobre sexo?










Alien: é tudo sobre sexo?


Alien é carinhosamente lembrado por fãs de horror pela seqüência sangrenta de explosão do peito de John Hurt que deu origem a uma das criaturas mais assustadoras e emblemáticas do cinema. Mas o filme também apresenta uma das mais assustadoras mortes fora de tela de todos os tempos, e uma ideia descartada (ou implicação oculta) na franquia: quando por último vemos Lambert (Veronica Cartwright), a cauda do xenomorfo é vista se enrolando de maneira nefasta ... entre suas pernas. Então, o filme corta de repente para Ripley correndo por um corredor escuro, mas ainda ouvimos Lambert ofegante e sofrendo com alguns gemidos desumanos. 


Que diabos está acontecendo aqui?  O que o alienígena está fazendo com Lambert? Será que - por sua própria natureza "perfeita" - possuem alguma outra forma de capacidade reprodutiva que ele está praticando sobre ela? Está cumprindo algum tipo de desejo sexual? Alien possui esse subtexto desconfortável que envolve nossa sexualidade humana. No nível de superfície imediatamente aparente, o filme se refere a uma criatura que pode perverter nosso ciclo reprodutivo para seus próprios fins. Mas por baixo dessas camadas há momentos no original de Scott que parecem envolver a homossexualidade, a repressão sexual, esteriótipos sexuais e muito mais.

Considere que o personagem de John Hurt, Kane, se torna o primeiro receptor dos avanços reprodutivos do alienígena. Fino, britânico, e sexualmente ambíguo, Kane é retratado - em um ponto no filme - vestindo uma roupa de baixo que parece ser uma roupa feminina; algo que é distintamente "afeminado" a sua aparência. Além disso, Kane vive o mais perigoso (ou seria promíscuo?) estilo de vida de qualquer um entre a tripulação. Ele é o primeiro a acordar de sono criogênico, o primeiro a sugerir uma caminhada para a estranha nave alien, e o único homem que desce na câmara de ovo da nave abandonada. Ele estaria bem familiarizado com o perigo como eram vistos os homossexuais pela sociedade por volta de 1979. 

Logo, é Kane que se torna involuntariamente receptivo a uma penetração oral: a inserção do "tubo" do face-hugger em sua garganta onde ele deposita o arrebentador de tórax. O que emerge desse encontro é "o filho de Kane" (na terminologia do personagem Ash). Mas, essencialmente, o alien força o pobre Kane - possivelmente um símbolo homossexual masculino - a agir no papel que ele poderia estar familiarizado; a de ser receptivo à penetração, a de ser uma fêmea. Não satisfeito, ao ganhar o apelido de "filho de Kane", o alien o transformaria em um individuo masculino forçado a tragédia da maternidade: fruto de um estupro, seu filho (que tem um aspecto fálico) o mata no parto.

Considere Ash e os fundamentos sexuais desse personagem. Ele é na verdade um robô - uma criatura presumivelmente incapaz de ter relações sexuais - e o subtexto do filme sugere que essa incapacidade, essa repressão do impulso sexual, fez dele um monstro também. Quando Ash ataca Ripley mais para o final do filme, ele enrola uma revista pornográfica (cercada por outros exemplos de pornografia) e tenta atolá-la na garganta da mulher ... é o seu substituto do pênis. A implicação deste ato particular é que ele não pode fazer a mesma coisa com seu pênis, então Ash deve usar a revista em seu lugar. Mais tarde, Ash admite o fato de que ele "inveja" o Alien (a criatura, como podemos ver, tem uma cabeça em forma fálica, seria esta a inveja de não ter um pênis?). Questiona-se também se ele o inveja porque o alienígena pode dominar sexualmente os outros de uma maneira que o desagradável Ash não pode fazer.

Note também que quando Ash é incapaz de satisfazer seu desejo sexual reprimido por Ripley, a pressão literalmente o faz explodir. O sangue androide é um líquido branco leitoso, como o sêmen. E jorra por toda parte, uma ejaculação catastrófica de proporções monumentais. Ash, quando confrontado com sua própria sexualidade e incapacidade de expressá-lo não consegue segurar a pressão.

Parker (Yaphet Kotto), um homem negro que descaradamente discute sobre "comer vaginas" durante a cena que leva ao momento do chestbuster, é o personagem mais hiper-masculinizado (de novo um estereótipo) em Alien. Ele possui uma relação antagonista, adversária, com Ripley, já que não aceita ser submisso a uma mulher e é o personagem mais frequentemente visto com uma arma (um atirador de chamas), um possível símbolo fálico. Em outro tipo de filme, Parker pode ser nosso herói. Mas aqui ele morre por causa da qualidade estereotipada do cavalheirismo masculino ou do machismo. Especificamente, ele não irá atirar com o lança-chamas no Alien, enquanto uma mulher (Lambert) está na linha de fogo. O alienígena despacha rapidamente Parker (mano a mano), talvez percebendo que nunca irá co-optar por um macho alfa como Parker para ser sua "fêmea", pelo menos não como Kane foi usado.

Quanto a Lambert, o personagem feminino mais tradicional (e estereotipado) no filme - ela é violentada pelo alienígena, presumivelmente pela cauda fálica do xenomorfo. Nota-se que Lambert, ao se ver naquela situação com a criatura dentro da nave, chora desesperadamente. Frágil, é a moça em perigo. Novamente, o alienígena explorou a natureza biológica / reprodutiva de um personagem e usou-a para satisfazer suas próprias necessidades destrutivas e perversas.  O que nos leva a Ripley. Ripley é um personagem escrito para um homem, mas interpretado por uma mulher (Sigourney Weaver). Ela é a única sobrevivente (juntamente com Jones, o gato), do alienígena na Nostromo, e há uma explicação que pode ser feita para sua sobrevivência: a de que o alienígena não pode tão facilmente "taxar" Ripley como macho ou fêmea. Ela é perfeita, como o alien é: se a criatura é a soma da perversidade humana (violência, agressividade, falta de sensibilidade, e por aí vai...), Ripley é a antítese, uma mistura de todas as qualidades "humanas".

Mas há ainda dois pontos a se considerar no filme. Dallas e Brett. Dallas, o capitão, é um macho alfa, salientado por sua barba - nada mais masculino do que uma barba... - mas dotado de inteligência cuja fraqueza está naquilo que Ripley e a criatura tem de sobra, seu instinto de sobrevivência. É o homem assim de poder. Já Brett representa um homem mais velho, aniquilado pelo poder sexual do mais jovem e mais forte e é, por consequência, o oposto da inteligência de Dallas, já que é tipicamente um homem de aspecto rústico. O momento em que Dallas é pego dentro dos dutos de ventilação representa a vitória do instinto do predador sobre a inteligência da presa. Não se trata, perceba, da luta corporal mano a mano com Parker. Aqui o alien precisa usar dos mesmos artifícios de Dallas para capturá-lo, como num jogo. O triunfo do macho sobre outro macho pode ser representado no fato de que, em uma cena deletada da versão dos cinemas, Dallas, paralisado de dor e quase em coma enquanto seu corpo é dissolvido, é transformado em uma espécie de casulo e pede para ser morto por Ripley, que toca fogo no lugar. O alien venceu o macho alfa inteligente, e o troféu está na parede.



Kane é possivelmente gay, Ash é um robô (e, portanto, não é capaz de expressar a sexualidade de uma forma "normal"), Parker é todo homem macho, Dallas o macho inteligente, Brett o macho velho fraco e ignorante, e Lambert é uma desamparada donzela em perigo... mas Ripley é praticamente uma amazonas e uma figura de autoridade (a terceira no comando). Ela também é a única personagem que equilibra o senso comum, o heroísmo e a competência. Dada esta mistura incomum de qualidades estereotipadas do sexo masculino e feminino, o extraterrestre não tem certeza de como "ler" ou "usar" Ripley. Nos momentos finais do filme, ele toma uma decisão. Ele reconhece Ripley - o melhor da humanidade, seja masculino ou feminino - como parentesco; um sobrevivente. Assim, monta em segredo com ela a bordo do ônibus Narciso enquanto escapam do Nostromo explodindo.

Note que o alienígena provavelmente poderia matar Ripley a qualquer momento durante aquele vôo de fuga ... mas não escolheu fazê-lo. Ele sabe que está em boas mãos com ela, pelo menos por enquanto. Ele usa sua "competência", sua habilidade (qualidades de si mesmo que reconhece nela?) para escapar da destruição novamente estabelecendo sua perfeição. Aqui, a perfeição pode ser medida pelo quão bem ela entende o inimigo, a presa. Então, sob os sustos e debaixo do grande projeto, o que temos no filme de Ridley Scott Alien é a história de um monstro que explora nossas visualizações de biologia e psicologia; nós (como espectadores) reexaminamos - talvez até subconscientemente - os estereótipos sexuais do dia. O homem homossexual está em perigo em primeiro lugar, os machos alfa são ineficazes, a fêmea tradicional "gritando" é explorada (não resgatada ...), o velho é subjugado pela força do novo, e o humano mais evoluído, Ripley (juntamente com outra criatura perfeita - um gato ) sobrevive para lutar outro dia.   

A natureza estranha, espinhosa e sexual de Alien que espreitamos logo abaixo da superfície do filme é perceptível mesmo em outros momentos. Basta dar uma longa olhada na "abertura" da nave alienígena abandonada. É claramente uma vagina. 


O chestbuster é claramente um grande falo


Dentro da nave do Space Jockey, mais sinais de sexualidade no cenário. O esqueleto da criatura (que o filme Prometheus revelaria como sendo de um traje espacial que escondia um humanoide chamado "Engenheiro") está sentado diante de um aparato que lembra novamente um falo gigante duro, apontando para o alto.


Não bastasse o rabo fálico da criatura, sua versão adulta baba, como se sua boca estivesse tomada por sêmen. A cabeça tem o formato de falo. Dentro dela, há outra boca, que se lança sobre a vítima como um falo de sua garganta. 


O facehugger, para inseminar suas vítimas, comete um estupro, forçando o sexo oral, sufocando a vítima como se estivesse forçando-a a engolir seu falo, mantendo os enormes dedos pressionados na cabeça dela. Há dois sacos escrotais e sua aparência interna é a de uma vagina, como se fosse uma criatura hermafrodita.   

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Pergunte a si mesmo por quê o sexo, e - às vezes, o desconforto com sexo - espreita no coração deste filme de terror. O filme de 1979 está cheio de teorias e implicações que se tornam mais profundas à medida que se revê. Isso torna o filme infinitamente interessante e digno de continuações que explorem cada vez mais o tema, o subtexto, e provoquem cada vez mais debates.

Texto traduzido, modificado e adaptado daqui.

3 comentários:

  1. Interessante texto, muito simbólico. Não tinha me atentado para o "estupro" da Lambert, mas era bem evidente os aspectos sexuais da criatura. As obras do H. R. Giger (grande mestre, que descanse em paz), mesmo sem relação com o filme Alien, tem uma conotação sexual enorme.
    Legal. Mais textos assim, plz.

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    1. Diego Garcia27 de maio de 2017 14:38
      Há também uma mãe (mother) suficientemente boa, que mesmo diante do apelo da "filha" em cancelar a iminência de auto-destruição do "ninho", não o faz, forçando a filha a abandonar o ninho, frustrando-a na medida.
      Ainda,a relação ambivalente do alien com a "mãe" (Ripley) e o corte do umbilical que joga a criatura no espaço, dando um basta a essa relação. Criatura essa que já havia eliminado o pai (os pais) em nome do amor da mãe.
      Sobre o estupro, percebe-se isso também pela exposição do pé descalço de Lambert, sugerindo sua nudez.

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  2. Há também uma mãe (mother) suficientemente boa, que mesmo diante do apelo da "filha" em cancelar a iminência de auto-destruição do "ninho", não o faz, forçando a filha a abandonar o ninho, frustrando-a na medida.
    Ainda,a relação ambivalente do alien com a "mãe" (Ripley) e o corte do umbilical que joga a criatura no espaço. Criatura essa que já havia eliminado o pai (os pais) em nome do amor da mãe.
    Sobre o estupro, percebe-se 8sso também pela exposição do pé descalço de Lambert, sugerindo sua nudez.

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