domingo, 9 de abril de 2017

Florence - Quem é essa mulher? - 2016




Por Jason


Florence Foster Jenkins (Meryl Streep) era uma herdeira rica filha de um banqueiro e desde pequena acreditava que poderia ser uma pianista e mais tarde uma cantora lírica. Era aconselhada desde sempre pelo pai a não cantar mas fugiu de casa para perseguir seu sonho. Casou com um médico e contraiu sífilis, que a deixou careca e para tal precisava consumir mercúrio. Em 1934, já uma senhora, decidiu investir na carreira de cantora lírica e contratou com seu segundo marido Clair (Hugh Grant) o pianista Cosmé McMoon (Simon Helberg) para treinar o canto e fazer o seu show. 

Com apenas um mês de treino e com sua voz horrível, ela decidiu que poderia se apresentar para uma plateia. O marido, sem que ela soubesse, atraiu a plateia para o show e Florence, obviamente, aterrorizou a todos com sua voz desafinada e sua total falta de talento e técnica vocal. Mas Florence, com seu carisma, fez sucesso não pelo motivo certo, por virar uma piada. Enquanto achava que estava abafando com seu canto desastrado, seu marido a incentivava a realizar seus sonhos e devaneios, encobria o desastre e a traía com Kathleen (Rebecca Ferguson). Florence, com mais de 70 anos, chegou a se apresentar no Carnegie Hall na década de 40, pouco antes de sua morte (dois dias depois ela sofreu um ataque cardíaco e um mês depois ela morreria em sua casa). Em seu caminho, já tinha destruído Mozart e outros clássicos.

O mais interessante da produção é fazer um paralelo com a indústria musical atual. Num mundo em que programas corrigem a voz, qualquer um parece apto a cantar e a gravar uma música. Quantas cantoras e cantores ruins estão por aí na mídia? A questão que ele acaba despertando no espectador, no entanto, é que nem sempre fama e talento caminham juntos. Florence não tinha nenhum dom para a música mas mesmo assim fazia sucesso, para o bem ou para o mal, porque tinha dinheiro para torrar e despertava alegria no público a partir da sua ridicularização. Só que Florence pagava mico e parecia totalmente alheia à percepção de que não podia (ou não deveria ou não tinha talento para) cantar. Há uma linha implícita no filme que é a diferença entre o querer ser e o poder ser e é nela que entra a mensagem do filme - a de correr atrás dos sonhos,  de se realizar, independente do que as pessoas em volta digam.

Stephen Frears como diretor já conseguiu extrair boas atuações femininas como em Ligações Perigosas (1988), Philomena (2013) e a Rainha (2006) que deu o Oscar de Melhor Atriz para Helen Mirren. Aqui ele aposta em leveza e num tom entre o cômico e absurdo que servem como espetáculo tragicômico para mais um passeio de Meryl Streep: a atriz é tão impressionante que some dentro do personagem e é capaz de transitar em qualquer gênero cinematográfico e sair completamente ilesa. Para fazer um balanço, basta prestar atenção no contraponto entre ela e Rebecca Ferguson - apagada como muleta de roteiro, cujo personagem some sem que ninguém sinta falta -, e se tem uma ideia do poder de sua atuação. 

O filme ainda traz um Hugh Grant, hoje envelhecido, muito bem no papel e a química do casal principal com Simon Helberg é perfeita. É de rolar de rir a primeira investida de Florence em sua aula de canto e a cada apresentação desastrosa que ela faz, mas é inegável que o roteiro tem estrutura frágil e óbvia. Esquece de mostrar o passado da personagem e como ela chegou até ali, apostando no didatismo - tudo o que sabemos sobre Florence vem das situações que o roteiro cria para que a personagem possa nos contar. Aqui e ali, o filme apela para o clichê, como na sequência em que Florence está sendo humilhada no palco do Carnegie Hall pela plateia e alguém se levanta para pedir aplausos e dar sua lição de moral sobre fazer o que gosta com o coração. Florence percorre o caminho da ridicularização e da humilhação para despertar pena no espectador, mas ao final apela para o melodrama fácil e cativa pela personificação de Meryl Streep. Tape os ouvidos e divirta-se!

Cotação: 3/5 

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