sexta-feira, 26 de maio de 2017

Alien Covenant - 2017




Por Jason


*Contém spoilers*.


À medida que Alien Covenant passava, a sensação que me dava era a de desespero. Não pelos personagens, não por terror, mas desespero por ver o filme, que tinha um projeto promissor depois do interessante - porém, problemático, Prometheus -, caminhar na mesma linha de produções vagabundas como os filmes de Alien vs Predador, que quase sepultaram definitivamente uma das criatura mais famosas do cinema - o que é uma desagradável surpresa, vindo do fato de que se trata de mais um filme da série dirigido por Ridley Scott. Desde a escalação do elenco, com gente demais, e o que importava de menos - Noomi Rapace, a Elizabeth Shaw de Prometheus, fora cortada do filme - e os primeiros trailers, já era possível prever que algo estava errado. O que a maioria dos fãs não esperava é que a coisa fosse tão desastrosa.

Em uma sala asséptica com um piano, uma cadeira e uma estátua de Davi, o androide David (Michael Fassbender) conversa com seu "pai" criador, Peter Weyland (Guy Pearce) e, ao despertar e tocar O ouro do Reno - A Entrada dos Deuses na Valhala (Das Rheingold, Scene 4: Entrance of the Gods into Valhalla), de Richard Wagner, questiona quem criou Weyland concluindo em uma lógica um tanto tenebrosa, que Weyland morrerá enquanto ele não. Sobem os letreiros, que surgem ao som de uma trilha sonora com o tema original de Alien O oitavo passageiro e cortamos para o ano de 2.104, na qual a nave Covenant carrega 2.000 pessoas em sono criogênico, uma tripulação de 15 pessoas e 1.140 embriões humanos a caminho de Origae 6, planeta com condições de abrigar os humanos em uma colônia e o qual deverá ser alcançado dentro de sete anos. Walter (Fassbender novamente), um sintético de última geração com a aparência de David, cuida do andamento da operação até que o computador anuncia que há um problema: um acidente faz com que a tripulação seja acordada às pressas e precise reparar a nave. O comandante - James Franco, em rápida participação igualmente descartável - morre carbonizado junto com outros e sua função é passada para o incompetente capitão Oram (Billy Crudup). Em seguida, eles recebem uma mensagem de outro planeta, na forma de uma canção, e Oram muda o curso da nave para este outro planeta, que também tem condições de abrigar vida mas ninguém nunca o estudou. Daniels (Katherine Waterson) alerta para o perigo, mas ele a ignora. No novo planeta, eles descobrem que o lugar não tem vida humana e aparentemente nenhuma vida animal. É aqui nesse ponto que o filme começa a degringolar e os buracos do roteiro começam a ficar mais evidentes.

A tripulação permite que um capitão mude uma rota que comprometerá a decisão de duas mil pessoas que sequer tiveram a oportunidade de opinar, o que deixa a sensação de que, além de incompetentes, a tripulação enviada para a missão é totalmente irresponsável. Essa mesma tripulação se divide e uma parte desce no planeta desconhecido sem o mínimo de proteção contra agentes biológicos ou químicos, o que é absurdo em se tratando de uma tripulação que conta com profissionais treinados de todas as áreas visitando um planeta que se acabou de descobrir. Não há um envio prévio de uma sonda para averiguar o terreno, sequer sobrevoam outros locais para um estudo mais detalhado, ignorando toda e qualquer possibilidade de um estudo cientifico que seja no mínimo verídico e passe qualquer confiança no espectador. Mas esse é apenas o começo do desastre: personagem decide sair para fumar por tédio e pisa em um esporo alienígena e, obviamente, é infectado. Daniels, Walter e sua equipe encontram uma estranha nave com sinais de queda. Lá, outro personagem aspira mais esporos alienígenas. É como uma reprise de momentos passados, é uma repetição ridícula de acontecimentos, mas o espectador já viu em outros filmes e em filmes melhores da série e o roteiro insiste em trazer de volta, com a diferença aqui que os personagens são, além de estúpidos, descartáveis.

Karine (Carmem Ejogo, outra sub aproveitada), esposa de Oram, ajuda o infectado levando-o de volta para a nave mas lá é presa dentro da sala por Faris (Amy Seimetz). Logo, Faris teria várias opções - desde liberá-la e deixá-la em outro lugar em observação enquanto procura por uma solução para o que se segue (o nascimento de um alien pelas costas do hospedeiro), ou mesmo deixá-los do lado de fora e se isolar lá, mas ela prefere ir atrás de uma arma para matar o bichinho e explodir tudo na empreitada - o que faz de Faris uma das personagens mais burras da história da saga e talvez da história da ficção científica. A mulher é quase uma Jar Jar Binks. É incômodo por exemplo perceber a incoerência de uma pessoa que chega a um planeta desconhecido sem nenhum equipamento de proteção contra infecções, mas fica preocupada com contágios quando seu parceiro aparece naquela situação e acaba, por consequência desses atos absurdos, matando a própria colega também. Pior: no primeiro filme lembramos do nascimento da criatura quando John Hurt se sacudia freneticamente sobre a mesa e todos tentavam segurá-lo. Aqui, o homem tremelica enquanto suas costas estão sendo arrombadas, situação em que deveria no mínimo estar no chão ou se batendo pelas paredes tamanha agonia (se uma hérnia de disco já deixa a pessoa enlouquecida de dor, imagine uma criatura quebrando a coluna de dentro pra fora). 

Toda a sequência é completamente aloprada, como se estivéssemos assistindo a trupe de Didi Mocó e os Trapalhões e, juro por Deus, achei que em algum momento o Mussum apareceria para gritar "cacildis", tamanho o descuido com que o roteiro trabalha esse momento que era de crucial importância para o filme. A sensação que se tem é a de que o roteiro foi escrito para representar animais como asnos e burros colonizando o planeta, mas na falta de um elenco de quadrúpedes treinados, empurraram os atores lá de qualquer jeito. Mais tarde, outro infectado dá a luz pela boca a mais uma criatura e o grupo, armado, ainda hesita em encher a criatura de bala enquanto ela desliza pelo corpo do hospedeiro, que volta para atacá-los. Na confusão, Walter perde a mão e, se o filme já vinha capengando com tanta palhaçada, é então que o circo desaba com a chegada de David.

O grupo acompanha David para as ruínas antigas de uma cidade, onde se encontram uma infinidade de cadáveres petrificados enquanto os tripulantes da nave Covenant em órbita ainda discutem o que fazer. No atelier macabro de David, ele ensina Walter a tocar flauta, dá beijinho na boca, e descobrimos como pulverizou uma populosa cidade de uma espécie humanoide - aparentemente, a mesma dos engenheiros vistos em Prometheus - usando o tal líquido preto visto no filme anterior. Outra coadjuvante é descartada no processo por uma das criaturas que Oram destrói, tendo na ação a oportunidade de despachar David; mas Oram, mula como é, é ridiculamente convidado por David a dar aquela espiadinha no ovo com o facehugger que, claro, o ataca e o parasita, dando origem ao chestbuster - cujo parto é apreciado por David como um pai que acompanha o parto de seu filho. Na confusão, David e Walter lutam até uma versão capenga de Mortal Kombat, justo Walter, que já tinha até tomado um Fatality, e David se passa por Walter. Daniels é resgatada por Tennessee (Danny McBride, mais perdido que cego em tiroteio), mas levam uma criatura a bordo. De volta à Covenant, mais uma criatura começa a tocar terror e a invadir banheiros, o alien "empata foda", numa das cenas mais desnecessárias e fora de contexto de todos os tempos, antes de ser despachado para o espaço por ela e esta descobrir que David está a bordo no lugar de Walter.

O filme não explica como David chegou ao ovo da criatura que, todos sabemos, partiu de uma ideia de James Cameron mostrada em Aliens O resgate - através de uma rainha. Não se sabe de onde essa rainha brotou nem se ela existiu nem se a personagem Shaw serviu como matriarca para as criaturas (David dá uma explicação mequetrefe para Oram). A personagem, aliás, é um dos maiores desperdícios da franquia, junto com Newt e Hicks, mortos no começo de Alien 3. Quase é possível ouvir as tramoias dos executivos de estúdio e dos produtores em excluir a personagem de uma continuação para dar destaque a algum ator ou atriz em evidência - no caso, Fassbender - quando este começa a falar sobre o destino da personagem - acreditando que isso atrairia mais audiência, o que, a julgar pela bilheteria mirrada do filme, só mostra o quanto eles estavam enganados. A FOX já havia tentado fazer isso com a própria Ellen Ripley na continuação Aliens, que eles gostariam de fazer, se ninguém ainda sabe, sem Weaver. Eles conseguiram excluir personagens no terceiro filme da saga e um exemplo mais recente disso está em outra franquia do estúdio, X-Men, onde a personagem Mística ganhou destaque inconcebível por ser interpretada pela queridinha do momento, Jennifer Lawrence. E esse é talvez o mais absurdo dos problemas do filme. Prometheus estabeleceu que a Dra. Elizabeth Shaw era uma nova protagonista tentando sair do molde de heroína de ação definida por Sigourney Weaver e sua icônica Ripley. E era ou pelo menos deveria ser o contraponto a personalidade de David; é frustrante saber que uma personagem que arrancou numa cesária auto induzida uma criatura extraterrena, depois correu uma maratona toda remendada para conseguir se safar do perigo e lutou contra um humanoide de mais de dois metros de altura, tenha um destino tão banal e absurdo como o desse filme e agora não passa de um cadáver destroçado pelas experiências do androide. Pior: como a personagem confiaria em um androide para vigiá-la suavemente enquanto ela dorme em sono criogênico se ele matou uma pessoa que ela amava e tentou forçá-la a manter a gravidez de um bebê lula alienígena?

O que assusta é que a culpa é menos da direção de Scott e também mais da cortesia dos roteiristas Michael Green (do péssimo Lanterna Verde), de um desconhecido Dante Harper (que consta como estreante em roteiros, embora tenha mais de 40 créditos como documentaristas e diretor de curtas), Jack Paglen (da bomba com Johnny Depp, Transcedence) e John Logan. Fica difícil acreditar que Logan tenha participação nessa bagaceira toda, sendo ele indicado a 3 Oscars, roteirista de filmes como 007 Skyfall, Gladiador, O último samurai, O aviador - mas ao puxarmos o histórico do cidadão percebemos que antes de ter alcançado algum status, é dele podreiras como A máquina do tempo, Morcegos e uma bomba feita para a televisão chamada Tornado. Todos eles parecem convencidos de que fazer um filme sobre uma cientista que quer descobrir a origem de nossa criação nas estrelas foi a causa da controvérsia de Prometeus - ao contrário de, digamos, todas as decisões questionáveis ​​em relação ao resto. 

É inacreditável também lembrar que todos eles tinham uma série de possibilidades para trabalharem: dar continuidade a trama de Shaw e sua busca por respostas sobre os engenheiros, usando o mote para um conflito entre ciência e religião e a perda de sua fé ou esperança de encontrar os criadores, mesmo que ela morresse ao final completando seu arco; criar uma trama de busca por seu paradeiro imediatamente após os acontecimentos do primeiro filme com os novos personagens; ignorar tudo o que foi visto em Prometheus e fazer algo totalmente novo, excluindo a tiracolo o chatíssimo David; evitar explicar a criação da criatura (é desnecessário e está ficando tão embolada quanto tediosa); buscar inspirações em elementos de um jogo como Alien Isolation (que conta a história da filha de Ripley e a busca por sua mãe, adicionando novidades em uma trama básica e funcional como o filme original); dentre muitas outras - mas eles escolheram o pior caminho. O personagem sintético, sempre um coadjuvante, aqui ganha destaque como vilão desinteressante. Não há personagens dignos de nota, não há tempo para se importar com eles, não há uma atuação que preste mesmo com o esforço de Fassbender, que é bom ator (mas longe do fenomenal), se desdobrando em dois personagens - Katherine Waterson é uma das piores coisas dos últimos tempos e o resto está lá apenas para morrer. Cortaram os prólogos divulgados, cenas de trailers com apresentação dos personagens que poderiam dar mais corpo a trama foram subtraídas na ilha de edição sabe-se lá por qual motivo. Há um casal homossexual dentro de um grupo de casais colonizadores, mas ele está ali para preencher uma cota já que em nada se acrescenta a trama. Alien deixou de ser muitas coisas, de falar sobre muito, para ser um filme sobre um robô complexado querendo ser Deus enchendo o saco. É decepcionante.

A trilha sonora é reciclada, não apresenta nada de novo, não há um tema novo que preste. Há um problema gritante de ritmo no terceiro ato, não há um crescendo para o climax, é uma bagunça generalizada. O prólogo poderia ser cortado, ele parece pertencer a outro filme, tamanho o fato que parece deslocado com o conceito visual que vemos em seguida. O filme ainda tenta escapar pelas sequências de gore e pela parte técnica, porque os filmes de Scott ainda mantém um nível de qualidade visual que se destacam de muitas produções. A primeira parte, por exemplo, que mostra o conserto da nave, recorda bons momentos de filmes de aventuras espaciais e é tecnicamente bem filmada. Há uma simbologia e textos subliminares espalhados ali que tentam dar profundidade a incômoda superficialidade do filme: a nave em si parece um falo gigante, com a cabeça feita pela cabine e testículos espalhados pelo seu corpo, à procura de fecundar um planeta (ecos do enorme falo que era a Discovery One furando o espaço em 2001 Uma odisseia no espaço?). Há as referências a "Ozymandias", soneto de Percy Bysshe Shelley, publicado em 1818 para descrever temas como a arrogância e a transitoriedade do poder; ao poema de John Milton "Paraíso Perdido", onde Lúcifer afirma que é "Melhor reinar no inferno do que servir no Céu" (e isso se encaixa com o desejo de David de se rebelar contra os humanos; não a toa, "Paradise Lost" foi o subtítulo original para o filme, antes de "Covenant" ser escolhido). 

Scott faz referências às suas próprias crias Blade Runner (no beijo que David dá em Walter que antecede sua morte, assim como Roy Batty quando está falando com seu criador) e o próprio Alien (quando David tenta matar Daniels da mesma forma que Ash tenta matar Ripley); reverencia sua continuação Aliens (repare na roupa que Daniels usa e na cena dentro da nave no terceiro ato ou no desembarque dos grupos no planeta), mistura Prometheus, mas não acerta em nenhum deles. Se em Prometheus, mesmo com os horrores do roteiro, ele ainda conseguia criar cenas de evidente beleza - o enquadramento da câmara com a cabeça em estátua se transformou em uma imagem emblemática do filme - aqui não há nada inspirador, é tudo genérico. Nem o design dos veículos além da Covenant, algo que sempre foi destaque na série, se salva da cafonice. Alien Covenant virou um fracasso nos EUA, abrindo com bilheteria inferior a Prometheus - embora tenha a segunda melhor abertura de toda a série e venha se dando melhor no mercado internacional, com saldo de críticas favoráveis - acima de 70% de aprovação. E difícil saber ainda se gerará lucro e se a continuação acontecerá mesmo com o anúncio dela já feito por Scott. Talvez, por mais irônico que possa ser, era melhor ele ter deixado o diretor capenga Neil Bloomkamp trazer de volta Sigourney Weaver e a icônica Ripley em um projeto que Scott sepultou. Ainda dá tempo de voltar atrás e pedir desculpas.

Cotação: 1/5

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