segunda-feira, 26 de junho de 2017

A Última Esperança da Terra (1971)





Por Jason

No ano de 1975, uma guerra biológica entre a China e a União Soviética provoca uma praga bactereológica que elimina a maioria da população humana da Terra através de um sufocamento repentino. O coronel do exército e cientista americano Robert Neville é contaminado mas consegue se salvar a tempo ao aplicar em si mesmo uma vacina que pesquisava juntamente com o exército. 


Os humanos sobreviventes sofreram mutações que os impedem de viver durante o dia. Um grupo desses mutantes que se autodenomina "A Família" persegue Neville pois o consideram o último resquício do velho mundo que levou a destruição da Humanidade.  A família é liderada por Mathias, que era um apresentador de televisão que apresentava relatórios durante a propagação da doença. Enquanto os mutantes repudiam o uso da tecnologia moderna, se valendo apenas de armas antigas como tochas e catapultas, Neville enfrenta os ataques noturnos com um arsenal de armas modernas que ele guarda em seu antigo lar, agora transformado em um bunker. Neville anda durante o dia na cidade silenciosa tentando localizar e exterminar os mutantes, sempre com cuidado em retornar para casa antes do sol se por e pensando que é o único humano normal ainda vivo na face da Terra. Mas ele logo descobrirá estar enganado quando é encontrado por um grupo de pessoas que vivem isoladas. Uma das personagens está com seu irmão doente e é com ele que Neville retorna com sucesso ao trabalho para encontrar uma cura.

O filme é baseado no livro I Am Legend, de Richard Matheson, de 1954, que serviu de inspiração para Eu sou a lenda, com Will Smith, em 2007 e, antes deste, para Mortos que matam, de 1964. Heston, já lendário, sempre foi meio canastrão, mas o problema aqui é a forma como o filme é conduzido. Logo no começo, onde o personagem é apresentado, as imagens mostradas já deveriam ser o bastante para mostrar o isolamento do personagem, mas ele segue disparando piadas e narrando o que se vê na tela. A trilha sonora é um horror e as criaturas vampirescas são risíveis: pintadas de branco, com óculos escuros, parecem saídas de uma banda de rock. Ao tirarem os óculos e mostrarem seus olhos, parecem transformistas - o filme envelheceu muito mal, pior que outro filme de Heston lançado apenas dois anos depois (o ótimo No mundo de 2020). A produção também não é muito feliz em criar o drama do personagem e perde força quando expõe rapidamente as criaturas ou quando apresenta outros personagens sobreviventes e empurra um romance deslocado, como de praxe, para agradar o público. O final é terrível.

Mas a produção é reflexo também de um tempo que ainda não acabou - dois anos antes do filme a China e Russia tinham problemas em suas fronteiras e os líderes mundiais estavam preocupados com uma possibilidade de uma guerra, nada muito diferente da atualidade, principalmente em se tratando dos russos. A última esperança da Terra critica a tecnologia - as criaturas triunfam sobre Neville munidas de artefatos medievais, ação simbolizada na morte do personagem ao final; detona o fanatismo religioso - não por acaso, o filme usa os vampirescos seguidores da tal família para mostrar o quanto eles são cegos e incapazes de enxergar a luz da salvação oferecida por Neville, sendo que Mathias critica violentamente esse antigo mundo de onde ele mesmo veio para instituir outro que ele julga melhor. E por fim, o interesse amoroso do personagem é uma atriz afro-americana, e o filme vira aqui uma arma contra o racismo.

Quatro anos antes, Adivinhe Quem Vem Para Jantar, de Stanley Kramer, causou polêmica ao mostrar um casal de noivos de cores de pele diferentes numa época que ainda era tabu mostrar casais inter-raciais (e ainda por cima principais) no cinema. Como se não bastasse, mesmo que ainda seja exposta em uma cena de nu, aqui a personagem é corajosa e decidida, com iniciativa, não uma mulher relegada a esperar que um homem a salve (para desespero dos machistas da época). A leitura sobre a questão da cor fica mais profunda com o fato de que a doença unifica todos os atingidos em uma cor branca e é assustador perceber, por exemplo, que personagens negros tenham que esbranquiçar para entrar para a nova ordem. Em determinado momento, Neville salva o personagem Richard, evitando que ele fique branco e devolvendo sua cor natural, ao que o rapaz prontamente vai oferecer a mesma possibilidade para Mathias dizendo que todos poderão ser "normais" de novo. Mathias, obviamente, condena a atitude e convoca a família para uma ideia nazista - a de "purificar o mundo". É por momentos assim que o filme ainda vale uma conferida.

Cotação: 2/5

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