domingo, 6 de agosto de 2017

Planeta dos macacos - A guerra - 2017





Por Jason


*O texto contém spoilers*

Depois do bem sucedido recomeço nos cinemas em 2011 e uma continuação de sucesso, a franquia Planeta dos Macacos chega ao terceiro episódio, A guerra, de maneira tão irretocável que já pode ser considerada uma das melhores trilogias dos últimos tempos e, porque não, a melhor franquia da atualidade.

O filme abre diretamente como sequência do filme anterior, com uma invasão militar em uma floresta, um território dominado pelos símios. Os símios reagem liderados por Cesar (Andy Serkis) que descobre que alguns de sua própria espécie, antes liderados por Koba (como mostrado no segundo filme), conduziram os soldados até lá. Koba, aliás, ainda aterroriza os pensamentos de Cesar. Cesar insiste em enviar um recado para o "coronel"  (Woody Harrelson) que liderou a ação, pedindo para deixar as florestas livres para os de sua espécie e assim haveria paz. O que, claro, é ignorado pelos militares que retornam para a floresta na calada da noite para capturar Cesar, com o coronel matando sua família, o que o faz se revoltar e planejar o seu revide.

No caminho para a luta, Cesar encontra uma menina muda e Bad Ape (Steve Zahn) um chimpanzé que vivia em um jardim zoológico antes do surto de Gripe Símia, chegando a base militar humana, onde os macacos são escravizados pelos humanos e vivem em um verdadeiro campo de concentração. Lá, os humanos remanescentes parecem educados para o militarismo, e seguem uma doutrina nazista com os macacos obrigados a agredirem uns aos outros e a servirem os humanos na construção de um muro sem água ou comida. Após a conclusão da muralha, serão todos mortos. Ali também Cesar descobre que o vírus que se espalhou na humanidade está causando mutações, com sintomas inversos ao que causa nos macacos, deixando os homens bestiais: a mutação do vírus da gripe símia torna os humanos sobreviventes mudos e é um prenúncio dos eventos do original O Planeta dos Macacos (1968), no qual a população humana sobrevivente é muda e primitiva. A partir daí, Cesar tentará libertará seu povo.

A franquia sempre foi um reflexo de temas atemporais e serviu para discutir problemas da humanidade usando os símios como alegorias. Aqui não é diferente. No meio da guerra, demonstrações de solidariedade partem dos macacos e sentimentos humanos como vingança também. Há a tradicional inversão de gêneros, com os homens mostrados como bestas e os animais como seres mais sensíveis e racionais. Cesar caminha na linha tênue entre a explosão de uma fúria animal e a sensibilidade que o mantém mais próximo do que se pode chamar de humanidade - ao passo que o Coronel já se esvaziou dessa proximidade quando precisou matar o seu próprio filho contaminado pelo vírus. Para ele, é a capacidade de fala que faz um humano ser o que é e ele mesmo experimentará mais tarde a infecção, que o transformará naquilo que ele mais teme. Sua reação, diante da loucura é até previsível.

A computação gráfica parece ter evoluído ainda mais em comparação ao filme anterior, a tal ponto que chega a assustar afinal apenas seis anos separam o primeiro filme desse. Quando a câmera foca próximo das criaturas é possível ver tantos detalhes que é impossível saber o que é feito em computador e o que é de fato real. Toda a direção de arte é orgânica e milimetricamente precisa e todas as sequências de ação são tão bem coreografadas e sem excessos, que nada se perde ou está ali sem sentido. A direção não picota o filme como um videoclipe, de forma que o espectador sabe o tempo todo exatamente o que está acontecendo. A trilha sonora se funde ao filme de maneira perfeita e isso mostra o total domínio do diretor Matt Reeves em contar uma história onde a técnica brilha em favor de um roteiro e de atuações impecáveis - e isso vai desde Andy Serkis, coberto de pelugem digital, até o cinismo e frieza à beira da loucura de Woody Harrelson.

O filme está cheio referências à franquia original, como a menina muda que é chamada de Nova, personagem interpretado por Linda Harrison na franquia original. O logotipo da bandeira do grupo dos humanos remete a De volta ao planeta dos macacos, numa referência a bomba dos adoradores mutantes apresentados no filme e o gigante X usado para amarrar os macacos no campo, por exemplo, são os mesmos utilizados como marcadores da zona proibida em Planeta dos Macacos. Uma curiosidade: quando Maurice finalmente fala e diz a Nova o seu nome, é a voz de Charlton Heston do original do filme original de 1968. Repare também que a biografia de mártir de Cesar traz ecos de Os 10 mandamentos - assim como Moisés, Cesar libera o povo da escravidão rumo a terra prometida não sem antes abrir um mar branco de avalanche que separa os inimigos dos macacos - e em determinado momento traz implícito outro texto bíblico já que ele é crucificado, exposto a seus seguidores e humilhado, tal qual Jesus Cristo. 

Alguém pode reclamar que o filme não dá um salto muito grande no tempo em relação ao filme anterior, sem apresentar novidades, afinal é apenas uma extensão do que foi visto anteriormente - diferente do que ocorrera entre o primeiro e o segundo filme da franquia original, quando incorporaram ao tema os humanos mutantes que viviam no subterrâneo e adoravam a bomba atômica em um culto bizarro. Pode reclamar que falta também à franquia alguma imagem ou sequência que a torne icônica, assim como a imagem emblemática da Estátua da Liberdade afundada na areia do clássico primeiro filme. Reeves é excelente em contar uma história e fazer um filme redondo, mas falta a ele um pouco de senso de arte dos grandes diretores em criar imagens inesquecíveis. Isso sem falar na ausência de um conflito em escala global, já que toda a trama da trilogia basicamente foi focada em torno da construção do personagem Cesar e seus conflitos pessoais - se o primeiro filme tratava de sua origem, o segundo virou um conflito dentro de seu próprio grupo com Koba e agora a premissa parte de uma vingança pessoal contra o Coronel. 

Talvez isso seja melhor trabalhado em novos episódios e a franquia assim encoste na atmosfera e no mundo mostrado nos filmes clássicos, já que desde o ano passado um quarto filme da franquia já começou a ser pensado. O final de A guerra é um tanto abrupto, já que tudo parece se resumir em dez minutos, mas deixa a brecha para uma série de possibilidades, nada que comprometa o composto final que é sensacional.

Cotação: 5/5

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