sábado, 13 de janeiro de 2018

A forma da água - 2017




Por Jason


Em A forma da água, Sally Hawkins vive uma personagem muda e solitária, Elisa, residente em um apartamento decrépito em cima de um velho cinema. É a década de 60, e em meio aos grandes conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria, Elisa trabalha como zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, quando se afeiçoa a uma criatura fantástica mantida presa e maltratada no local. Para executar um arriscado e apaixonado resgate, ela recorre ao melhor amigo homossexual Giles (Richard Jenkins) e à colega de turno Zelda (Octavia Spencer).

O diretor Guilhermo Del Toro faz de A forma da água sua metáfora aos excluídos. Elisa, além de pertencer a uma classe baixa social, é muda e, obviamente, está longe dos padrões de beleza impostos pela sociedade. Sua amiga Zelda, não por acaso, é negra, pobre, sem mãe e irmãos, fora dos padrões de beleza da sociedade e com um casamento ruim. O roteiro apresenta as duas como contrapontos, mas que são ligadas por um motivo comum - a solidão. Zelda é casada e reclama do marido constantemente, se retratando como uma pessoa que convive com outra mas mesmo assim se sente solitária já que o marido não a ajuda em nada, ao passo que Elisa vive sua rotina diária sozinha se masturbando diariamente em sua banheira (preste atenção em como Del Toro mostra a vida de Zelda - ela fala pelos cotovelos - e como mostra a de Elisa em silêncio). O amigo  de Elisa, Giles, está velho, sozinho, desempregado, apaixonado por um vendedor de tortas de sabores horríveis que é bem mais jovem que ele, mas que é racista e que não lhe corresponde. Giles é infeliz por viver a vida dessa forma. Todos eles parecem buscar um sentido na vida e quando a ideia do resgate da criatura aparece em suas vidas, esses desajustados finalmente parecem encontrar algo importante para fazer além da mediocridade. 

Para a ação, eles recebem ajuda de um cientista russo, que está infiltrado no país, o doutor Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg, que está em outros filmes comentados da temporada, Me chame pelo seu nome, e The post). O doutor é contra a dissecação da criatura pelos americanos e acredita que ela pode se comunicar com os seres humanos,  mas recebe dos russos a ordem para destruí-la e defende a sobrevivência dela. Del Toro recria assim a época com um misto de realidade, fantasia, absurdo e horror. Strickland (Michael Shannon), o vilão, é uma pessoa infeliz, descontente com seu casamento, que procura sua realização pessoal na aquisição do modelo de carro da moda, um Cadillac, símbolo de status e de poder (com a cor da moda azul pretróleo) e cuja família é a típica família americana de comercial da TV da época. As cenas de sua família na sua casa colorida contrastam com as instalações sombrias que parecem ter saído de um delírio de ficção das décadas de 50 e 60; colidem com cenas como a de Elisa recolhendo os dedos de Strickland arrancados pela criatura como alguém que pega qualquer coisa; com a cena da criatura comendo um gato e cenas de tortura que pipocam na tela. É a sua versão de O monstro da lagoa negra, potencializada pelo cuidadoso figurino, pela paleta de cores da fotografia (atenção no tom verde) que lembra algum filme de Jean-Pierre Jeunet, pela trilha sonora cuidadosa (que inclui até Carmem Miranda) e pelos cenários. Tudo é esteticamente muito bem cuidado para um filme que custou a mixaria de menos de 20 milhões de dólares - e o filme, que já vem colecionando prêmios, já é serio candidato ao Oscar por tudo isso.

A criatura é perfeita, de visual impecável e aqui cabe um parentese para a performance excepcional de Doug Jones. A forma como interage com os humanos é outro ponto a favor do filme: Del Toro não faz o espectador esquecer que, apesar de se afeiçoar a Elisa e ter poderes curativos, ela ainda é uma criatura perigosa e imprevisível mas que pode ser mais humana do que qualquer ser humano que a rodeia. A forma como os dois se conectam é organicamente perfeita, de modo que quando a criatura sofre nas mãos de Strickland é impossível não sofrer com ela. Para além de ser um filme de monstro, A forma da água é um romance sobre um casal impossível cujo destino, todos sabemos, caminha para o trágico.

O sucesso do filme seria impossível sem Sally Hawkins. Completamente - e literalmente - desnuda, Sally faz um trabalho impecável, um trabalho primoroso do começo ao fim em que se doa por completo. Sally consegue falar com os olhos, com os gestos, com expressões. É impossível não torcer por Elisa e por sua felicidade, não sentir na pele seu sofrimento, mesmo sabendo o que a espera mais adiante. Do restante do elenco, Richard Jenkins é grande ator subestimado, Michael Shannon é ator acima da média e Octavia Spencer surge um tanto presa na fôrma de outros papeis que já interpretou. A Forma da água escorrega aqui e ali, principalmente no terceiro ato, quando a criatura é resgatada e a trama entra num tipo de limbo, e no seu desfecho de novela mexicana. Nada que comprometa o deslumbrante resultado final.

Cotação: 4/5
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