terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Eu, Tonya - 2017




Por Jason


Em Eu, Tonya, Margot Robbie interpreta Tonya Harding, ex patinadora americana que foi a segunda mulher, e a primeira mulher americana, a dar o salto triplo axel em competições, um movimento dificílimo da patinação e o mais complicado para um evento feminino (O Axel é considerado o salto com maior dificuldade técnica entre os seis tipos de saltos da patinação artística no gelo). Mais tarde ela se encontrou no centro das atenções internacionais depois que seu ex-marido fez um ataque contra a também patinadora Nancy Kerrigan nas sessões de treinamentos durante o Campeonato dos Estados Unidos em 1994. 

Tonya teve uma vida difícil. Apesar de ter um talento natural para a patinação - desde os quatro anos ela já ganhava competição - ninguém queria treiná-la. A mãe Lavona (Allison Janney) era sua principal incentivadora, mas era também sua principal algoz. Batia na menina, a insultava e lhe culpava por tudo. Tonya foi abandonada pelo pai, se envolveu com Jeff Gillooly (Sebastian Stan) que a espancava constantemente - os dois viviam em pé de guerra e mesmo assim se casaram porque ela associava o amor às pancadas que levou a vida toda da mãe. Tonya, mesmo depois de mais velha, ainda sofria nas mãos da mãe que sempre a menosprezava e inferiorizava.

O casamento com Jeff piorou na mesma proporção que ela era espancada por qualquer motivo e o sucesso subiu à cabeça quando Tonya já era a primeira dos EUA e a segunda do mundo no ano de 91, mas passou também a ser sabotada pelo sistema do esporte, que queria a imagem de princesa da patinação filha de uma família considerada "saudável" que ela não tinha - embora fosse capaz de entender que pudesse ter um futuro brilhante adiante caso agisse da forma que queriam. Tonya sabia que era boa, e sabia que estava acima da média; tinha no salto seu diferencial, mas era sempre ignorada. Seu envolvimento com o ataque a Nancy Kerrigan foi apenas o ato final de uma adulta com vida complicada a qual ela se tornou e atirou tudo no lixo. Foi banida do esporte para sempre, pegou condenação de 3 anos, tentou a vida como boxeadora e hoje está casada trabalhando como design de interiores e vivendo pacificamente como uma mãe dedicada.

A produção daria um filmaço nas mãos de gente mais competente porque se trata de uma história no mínimo triste, no sentido de que Tonya Harding tinha um talento natural que foi destroçado pela vida pessoal complicada, falta de estrutura psicológica e ao mesmo tempo atropelada pelo seu envolvimento com as pessoas erradas em relacionamentos abusivos. Não se trata aqui de endeusar Tonya, já que ela mesma reconhece à certa altura que era uma pessoa difícil, mas de reconhecer que ela tinha talento e que fora prejudicada a vida toda. Na pista, ela tinha força, habilidade atlética, garra, velocidade e a potência que faltavam as competidoras - e quando o filme termina e vemos a verdadeira Tonya em ação, sentimos tudo isso imediatamente. O problema maior do filme é como tudo isso é jogado na tela. 

A narração OFF estoura o tempo todo, como se o filme não fosse capaz de se sustentar nas atuações. Personagens explicam o que se vê na tela, como se o espectador não fosse capaz de entender. O tom de comédia parece deslocado - Tonya apanha, é ameaçada de morte, leva tiro do ex marido, facada da mãe, cenas de violência e insultos contra ela pipocam na tela com murros, tapas, humilhações, mas elas são entrecortadas por cenas em que os personagens conversam com a câmera, esvaziadas de impacto por músicas deslocadas que sobem o tempo todo até encher o saco e por um clima incômodo de falta de peso dramático e tom idiota de comédia. O filme parece não dar importância para sua personagem, nem ao que ela sofre, levando tudo na brincadeira quando deveria falar sério e isso é de causar incômodo. O problema é que não há graça em ver uma mulher ser agredida pelo marido e comer o pão que o diabo nem quis amassar nas mãos dele enquanto se tira sarro disso, como se transformasse a vida da biografada em uma grande piada. Por mais absurdo que possa parecer, o momento mais dramático é quando ela, emocionada, recebe a notícia de que será banida do esporte. Até esse momento, o filme desandou.

Nesse contexto, quem patina é Margot Robbie. Perdida nesse roteiro fora do tom, Robbie surge irregular, beirando a caricatura, por muitas vezes forçada e acima do tom, incorporando a vontade de ser uma grande atriz em um filme que não se ajuda nem a ajuda. É estranho até mesmo perceber como a crítica vem ovacionando o filme - talvez o monólogo de Tonya sobre a América e a ironia de sua vida se encaixem aqui - e como vem empurrando elogios para a atriz que merece mais pelo esforço para contornar os problemas do que pela atuação em si. Quem rouba a cena é Alisson Janney, já com o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme, como a mãe miserável, exigente, estúpida, neurótica, problemática - e por consequência real e terrível - cuja ideia de sucesso é queimar a filha em um tipo de inferno pessoal. À Sebastian Stan resta a caricatura de um homem desequilibrado obcecado por Tonya. Ao final, Eu, Tonya vale uma olhada por trazer mais conhecimento sobre os fatos e sobre a esportista, além de sua visão sobre sua vida e sua versão sobre o ocorrido com Nancy. Como o grande filme que andam apregoando por aí, porém, soa mais como um novelão superficial e estúpido.

Cotação: 1/5
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